domingo, 16 de julho de 2017

pegar um clipe

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"Há muito tempo, quando eu escrevia para revistas pulp, botei numa história uma frase assim: 'Ele saiu do carro e andou pela calçada banhada de sol até que a sombra de um toldo bateu em seu rosto como um jato de água fria'. Quando a história foi publicada, a frase foi cortada. Os leitores, argumentava-se, não gostavam desse tipo de coisa, que só atrapalhava a ação. Eu me dispus a provar que eles estavam errados.

Minha teoria é que os leitores acham que só se importam com a ação; que, na verdade, embora não saibam disso, o que importa para eles, e o que importa para mim, é a criação da emoção por meio do diálogo e da descrição. As coisas de que eles se lembravam, as que os impressionavam, não eram, por exemplo, que um homem fosse morto, mas que no momento de sua morte ele estivesse tentando pegar um clipe da superfície lustrosa de uma mesa e que este lhe escapasse, de modo que em seu rosto houvesse uma expressão de tensão, que sua boca estivesse meio aberta numa espécie de ricto atormentado e que a última coisa no mundo em que ele estivesse pensando fosse a morte. Ele nem sequer ouviu a morte bater à porta. O danado do clipe continuou escapando de seus dedos."

Raymond Chandler, em carta a Frederick Lewis Allen, 1948
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terça-feira, 16 de maio de 2017

que afinal de contas não viveram nada

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"Mas uma coisa sabemos: para que um mundo novo surja, é preciso primeiro que um mundo antigo morra. E sabemos também que o intervalo que os separa pode ser infinitamente curto ou, ao contrário, tão longo que os homens devem aprender a viver em meio a desolação por dezenas de anos, para então fatalmente descobrir que são incapazes de fazê-lo e que afinal de contas não viveram nada. Quem sabe até sejamos capazes de reconhecer os signos quase imperceptíveis que anunciam que um mundo acaba de desaparecer, não o sibilo de um morteiro sobre as planícies estripadas do norte, mas o disparo de um obturador que mal perturba a luz vibrante do verão, a mão fina e gasta de uma mulher jovem que, no meio da noite, fecha devagarinho uma porta contra tudo que sua vida não devia ter sido ou a vela quadrada de um navio cruzando o Mediterrâneo ao largo de Hipona, trazendo de Roma a notícia inconcebível de que os homens seguem vivos, mas seu mundo não existe mais."

Jérôme Ferrari, "O sermão da queda de Roma", 2012
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segunda-feira, 6 de março de 2017

caught between an iceberg and a desert

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Jim Goldberg, Rich and Poor, 1977-85


"When I look at this picture I feel alone. It makes me want to reach out to Patty and make our relationship work", 1979
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"I think it best to present myself as being kind, polite, and pleasant. It is so important in a civilized existence. This photograph reveals what is under the surface: power, sexuality, self-confidence. One doesn't project this image in every situation - it can cause problems", 1980
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"To me life seems so messed up but little by little I am trying to over come that. Because it is hard being a woman and to accept me as I am", 1977
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"Very good! I think we fit in beautifully in the environment. The life we live comes naturally to us. We are aristocratic, well-bred: a cultured and civilized couple. I have never had to work a day in my life. I don't care if people like the way we live. All we want is peace and quiet", 1982
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"This picture says that we are a very emotional & tight family, like the three Musketteers. Poverty sucks but it brings us closer together", 1979
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"Much of my life is about managing and controlling things. This room is a place where I can sit back, and let go of the effort to be so powerful. At times, I feel much more power in art than I feel in myself. It's a good feeling", 1980
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"My face shows the intensity of a pained woman. I've been mugged and beaten. I didn't ask for this mess. This makes me look like a bum - I am not. I am fantastic Dorothy, a popular personality. The nicest person in the hotel", 1983
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"I wish I could see more softness within myself. Most of the time, as though in limbo, I feel caught between an iceberg and a desert", 1983
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